Salve Geral: o dia que o PCC parou São Paulo

Salve Geral: o dia que o PCC parou São Paulo

Salve Geral: o dia que o PCC parou São Paulo.

12 de maio de 2006, sexta-feira, um dia que São Paulo e o Brasil jamais esquecerão.  Há dez anos, instruídos por telefones celulares de dentro dos presídios, membros do PCC, também chamados de partido do crime, orquestraram uma rebelião que atingiu 74 presídios, e executaram 373 ataques que tiveram como alvo bases policiais e do Corpo de Bombeiros.

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Os números da tragédia
         Segundo informações oficiais divulgadas na época, o numero de vitimas fatais foi de 154, sendo 24 policiais militares, 11 policiais civis, 09 agentes penitenciários, 110 cidadãos, dos quais 79 eram suspeitos de ter ligação com o PCC.  Contrariando esses números, estatísticas de entidades médicas relataram 493 mortes na ocasião.
     Todavia, alguns anos depois, em 2009, o relatório final da pesquisa “Análise dos Impactos dos Ataques do PCC”, realizado pelo Laboratório de Análise da Violência da Universidade Estadual do Rio de Janeiro e coordenado pelo sociólogo Ignácio Cano, deram números definitivos a essa tragédia. Vamos a eles:
564 pessoas morreram por arma de fogo no Estado de São Paulo entre 12 e 21 de maio de 2006, 59 eram agentes públicos, os outros 505 eram civis. Dentre esses civis, 118 morreram em confronto com a polícia; 50 foram vítimas de execução sumária individual; 35 de execução sumária por grupo não encapuzado; 53 por grupo encapuzado; 04 foram executados sumariamente por policiais; 10 morreram em ataques a delegacias; 06 em conflitos interindividual, 02 em acidente ou bala perdida; 21 por outros motivos e 206 por desconhecidos. O dia mais crítico foi 14 de maio (domingo, Dia das Mães), quando 107 morreram. No dia 15 foram mortos 84 civis; no dia 16, outros 75 e no dia 17, mais 65. A maioria dos agentes públicos morreu nos três primeiros dias de ataque, sendo 10 em 12 de maio, 23 no dia 13 e 08 no dia 14. Um dado revelador do relatório é que enquanto os agentes públicos foram mortos nos dias 12 e 13, os civis foram mortos, entre os dias 14 e 17. "Esse quadro reforça a suspeita de que houve uma represália às ações do PCC, uma vez que a maior parte dos civis morreu nos dias seguintes", afirmou o autor do relatório. Nos dois primeiros dias dos ataques, a proporção entre os números de agentes públicos mortos e o de civis foi semelhante. A partir do dia 14, para cada agente morto havia 10 civis mortos. No dia 17, a proporção chegou à casa dos 20 mortos.

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      Policiais no enterro de companheiros

Os motivos dos ataques do PCC

         Ao que tudo indicava na época, os ataques teriam sido uma resposta do PCC a uma tentativa das autoridades de isolar 765 presos, entre eles os principais líderes da organização, em presídios de segurança máxima. No dia 12, oito líderes foram levados para a sede do Deic (Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado), na zona norte de São Paulo. Entre eles, encontrava-se o líder da facção, Marcos Willians Herba Camacho, o Marcola. No dia 13, ele foi levado para a penitenciária de Presidente Bernardes (589 km a oeste de São Paulo), considerada uma das mais seguras do país. Lá, ele ficaria sob o RDD (Regime Disciplinar Diferenciado). 
     Porém, alguns anos depois, um estudo feito pela ONG Justiça Global, e pela Clínica Internacional de Direitos Humanos da Faculdade de Direito de Harvard, chegou à outra conclusão. No relatório, divulgado pela imprensa na época, um ato de corrupção teria sido o verdadeiro motivo dos ataques.
     Segundo o que foi divulgado na ocasião, em março de 2005 Rodrigo Olivatto de Morais, enteado de Marcos William Camacho, o Marcola, líder do PCC, foi sequestrado por policiais civis de Suzano, na Grande São Paulo, e só teria sido solto depois de Marcola ter pagado o resgate de R$ 300 mil. No dia 12 de maio de 2006, pouco antes dos ataques do PCC, Marcola, que ficara indignado com o sequestro, fez um comentário no Departamento de Investigações sobre o Crime Organizado (Deic): "Não vai ficar barato."
 
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Marcos William Camacho, o Marcola

Salve geral

        Começaria então a maior onda de atentados contra forças de segurança, atingindo também alvos civis, na história do Brasil. Ataques que começaram no Estado de São Paulo no dia 12, mas que no dia 14 já havia atingido Espirito Santo, Paraná, Mato Grosso do Sul, Minas Gerais e o Estado da Bahia que não tinha ligação direta com o PCC.
     Espalhou-se um pânico geral devido à estrondosa repercussão na mídia nacional e a falta de informação por parte do Governo de São Paulo. O clima de terrorismo se espalhou rapidamente pela população. A imprensa internacional deu destaque aos fatos por dias seguidos.
     Os principais fatos que fizeram com que o Governador de São Paulo fosse duramente criticado foram: demora na resposta aos ataques, falta de comunicação entre as forças policias, falta de informação à mídia e à população em geral e gerenciamento da crise. Claudio Lembo do PFL era o Governador na época e estava apenas há um mês e meio no cargo.

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As ações orquestradas aconteceram nos seguintes locais: na cidade de São Paulo, na Grande São Paulo (Guarulhos, Santo André, São Bernardo do Campo, Jandira, Osasco, Mogi das Cruzes e Cotia), no litoral (Guarujá, Praia Grande, Cubatão) e no interior do estado (Araraquara, Avaré, São José dos Campos, Jacareí, Araras, Marília, Campinas, Campo Limpo Paulista, Itapira, Mogi Mirim, Ourinhos, Paulínia, Águas de Lindoia, Piracicaba, Limeira, Ribeirão Preto, Santa Bárbara d'Oeste, Tupã, Várzea Paulista, Presidente Venceslau e Taubaté).
De imediato foram executados 251 ataques, rebeliões em presídios, Centro de Detenção Provisória e 09 cadeias públicas na capital, Grande São Paulo, interior e litoral do estado. Já na noite do dia 14, havia 53 unidades com presos rebelados simultaneamente. As instalações das unidades prisionais foram bastante danificadas, colocaram fogo nos colchões, torturaram outros presos, agentes penitenciários e alguns reféns. Tentativas de resgatar presos também foram registradas.
Durante os tumultos, 90 ônibus foram queimados, 51 na Cidade de São Paulo e os outros na região do ABC, em Osasco e em Campinas. Na terça-feira dia 16 de maio a situação começou a ficar mais tranquila, mas ainda foi queimado um ônibus na parte da tarde, e na madrugada houve conflitos da polícia com suspeitos.
Nos ataques contra as forças de segurança, agencias bancárias também foram atingidas, granadas, bombas caseiras e metralhadoras foram utilizadas. Apesar de os principais alvos terem sido policiais militares, guardas municipais, famílias de policiais, seguranças privados e civis também foram atingidos ou ameaçados.
Repórter sequestrado
No dia 13 de agosto de 2006, por volta de meia noite e meia, o plantão da Rede Globo exibiu um vídeo que haviam recebido, para todo o Brasil. Dois de seus funcionários, o repórter Guilherme Portanova, e o auxiliar técnico Alexandre Calado, haviam sido sequestrados na manhã do dia anterior.
O auxiliar técnico Alexandre Calado foi solto, para entregar um DVD para a Rede Globo, que deveria transmitir o vídeo com teor de um manifesto. O repórter Guilherme Portanova só seria solto após esta transmissão.
 O material, com 3 minutos e 26 segundos de duração, trazia um homem encapuzado criticando o Regime Disciplinar Diferenciado (RDD), que prevê o isolamento dos detentos.
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Guilherme Portanova
 A resposta do governo
O Governo começa a se mobilizar para se defender e contra atacar o PCC. A Polícia Militar de São Paulo cancelou folgas, transmitiu um alerta para todos os seus homens e prendeu 82 suspeitos. As ruas próximas a departamentos de polícia foram fechada para dificultar os ataques, o patrulhamento da cidade foi muito intensificado, com muitas blitz acontecendo.
Na tarde do dia 13 de maio de 2006 o comandante-geral da PM de São Paulo, Coronel Elizeu Eclair Teixeira Borges, declarou em entrevista à imprensa: "Estamos em guerra contra eles [os criminosos]. Vamos ter mais baixas, mas não vamos recuar" e fez duras críticas à divulgação de boatos que estariam instaurando pânico na população.
Em entrevista no Palácio do Planalto o ministro da Justiça, Márcio Thomaz Bastos, afirmou que o então presidente Luiz Inácio Lula da Silva telefonou para o governador de São Paulo para colocar à disposição dele todas as forças federais, inclusive as Forças Armadas.
 Bastos foi a São Paulo dia 15 para um encontro com o governador, que rejeitou as forças federais, mas disse que as equipes de inteligência federal e do estado já trabalhavam em conjunto. O Governo Federal reforçou o patrulhamento das estradas federais paulistas até segunda ordem.
Ameaças e boatos
Muitas ameaças aconteceram no Estado de São Paulo por parte do PCC,  ataque a vans, ônibus escolares, grandes colégios privados como o Dante Alighieri, Rio Branco, Santo Américo, Santo Ivo, Bandeirantes, FAC e Porto Seguro; e hospitais como o Albert Einstein e Pan-americano. Em várias escolas as aulas foram suspensas por causa do medo da violência. Universidades, incluindo a USP (Universidade de São Paulo), a Unicamp (Universidade de Campinas) e a PUC-Campinas, foram fechadas. Comércios e repartições públicas também baixaram as portas
Ameaças também aconteceram contra estâncias turísticas no interior, Campos do Jordão, Serra Negra, Águas de Lindoia, Itu. Em Marília, Presidente Epitácio, Taubaté e Poá tiveram ameaças de ataques a bancos, hospitais, colégios, estações rodoviárias e delegacias.
O Fórum Distrital de Brás Cubas, em Mogi das Cruzes, situado num dos bairros mais violentos dessa cidade, chegou a ser metralhado.
Ameaças de bomba contra os aeroportos de São Paulo, e telefonemas para empresas aéreas que operam em Congonhas e Guarulhos, provocou a evacuação dos saguões dos aeroportos, sem que fosse encontrado nada.  
Outras ameaças começaram a surgir, bomba no Terminal Rodoviário do Tietê, nos shoppings Villa-Lobos, Market Place, Iguatemi e West Plaza, tiroteio em escola de Higienópolis, toque de recolher às 18h ou 20h, ataques em estações do Metrô, ataques contra prefeituras no interior, ataques contra empresas de telefonia, incêndio em escola e em creche. Nada disso aconteceu, mas espalhou um pânico total em São Paulo.
O medo e os boatos fizeram com que a maioria das empresas dispensasse seus funcionários mais cedo, por volta das 16 horas. Isso causou um enorme trânsito em toda a cidade. Por volta das 20 horas, em compensação, a cidade de São Paulo estava praticamente deserta, com a maioria dos moradores trancados em suas casas.
O suposto acordo
A Folha de S. Paulo, em matéria publicada em 16 de maio de 2006, afirmou que o governo de São Paulo teria feito um "acordo" com o PCC para o fim ao conflito, baseado em um encontro entre a advogada e ex-delegada da Polícia Civil, Iracema Vasciaveo, e Marcos Willians Herbas Camacho, o Marcola, líder da PCC, arrumado pela cúpula do governo paulista.
A advogada foi ao encontro acompanhada pelo comandante da PM da região de Presidente Prudente, Ailton Araújo Brandão, pelo corregedor da Secretaria de Administração Penitenciária, Antônio Ruiz Lopes, e pelo delegado da Polícia Civil, José Luiz Cavalcante, em um jato da Polícia Militar. O governo de São Paulo negou categoricamente o acordo, mas o certo é que todas as rebeliões em presídios pararam na noite seguinte à do encontro.
O secretário da Administração Penitenciária de São Paulo na época, Nagashi Furukawa, negou em 2006 que tivesse acontecido um acordo, contudo em 2008, afirmou acreditar na existência de um acordo, citando como evidência a "redução radical na ocupação de celas RDD" após a sua gestão. Segundo um artigo publicado pela International Human Rights Clinic da Harvard Law School, o fim dos ataques teria sido condicionado à proibição da entrada da Tropa de Choque nos presídios rebelados e à concessão de benefícios aos líderes transferidos, como a ampliação do período de banho de sol, o fim do regime de observação, a autorização de visitas conjugais e a instalação de televisores em celas individuais, e ainda à execução de um desafeto de Marcola.
São Paulo, a cidade que nunca para, parou. Durante o ano de 2006 os ataques do PCC continuaram acontecendo com alguma frequência.  
O filme Salve Geral, de 2009, mostra o drama da mãe de um preso que se envolve com o PCC durante os acontecimentos de maio de 2006.

Fontes : Wikipédia, Estadão, Folha de São Paulo, O Globo.

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